Mas qual seria o parâmetro para difícil? O meu difícil talvez não seja o mesmo que o seu. Quando estamos em nossas caixas de vidro, andando pelo mundo, acredito que em cada uma delas há obstáculos diferentes para cada pessoa, essa deveria ser a lógica, já que nem todo mundo é igual.
Mas o meu hoje foi difícil. Porque hoje eu contestei a meritocracia. E isso me enoja porque sempre afirmei que ela não existia. Mas hoje eu a contestei.
É feliz quem se empenha mais? Quem se esforça mais? Ou será que é mais feliz quem ignora mais? Porque hoje eu me lembrei de muitas vezes em que não fui feliz, e alguns motivos que me deixaram triste nos dias atuais.
Hoje eu quebrei o guarda-roupas. Quem me dera fosse uma metáfora, mas não é, mesmo podendo ser.
Havia um guarda-roupas no meu quarto, e olhar para ele todo arranhado me fazia lembrar do dia em que aquilo aconteceu.
Gritos, muitos gritos, de um homem relativamente mais baixo e mais fraco que eu, e eu sentada apenas pedindo para fazer menos barulho. Meu medo era dos vizinhos ouvirem. Não era ele me machucar. Nessa hora, os móveis foram recebendo uma raiva que a eles não pertencia. Talvez fosse direcionada para mim, mas eles (os móveis, inclusive o guarda-roupas) entraram na linha de frente daquela situação.
A cada estrondo, parecia que algo se quebrava dentro de mim. E o silêncio, quando se instaurou, foi da pior maneira possível. As mãos já não desferia movimentos raivosos nos móveis, elas estavam paradas em outro lugar, que as marcas eu só fui ver depois, no dia seguinte.
Enquanto aquele silêncio se perdurava, eu só ficava aliviada, porque agora os vizinhos não iriam ouvir aquela gritaria. Por que eu estava tão preocupada com os vizinhos, se eu era daquelas que sempre me gabava de não ligar para a opinião alheia? Mas naquele instante eu só queria que ninguém soubesse. Era vergonhoso pra mim. Logo eu, estar passando por aquela situação.
Mas como boa leitora que sou, lia cada gota de suor que descia da testa dele, cada veia que saltava da sua pele quando aplicava mais força, e cada tremor que anunciava que ele iria parar, que ele já iria parar. E depois que ele parasse... eu sabia que ia ser pior.
Eu sabia o roteiro de cor. Depois da explosão, viriam as lágrimas, os pedidos de perdão e, de algum jeito incompreensível, a culpa acabaria encontrando algum lugar dentro de mim.
E foi exatamente assim. Pouco tempo depois, ele estava ajoelhado ao lado da cama, chorando, dizendo que iria embora. E em um solavanco, ele se levantou e juntou tudo nas malas.
Lentamente eu me levantei e fui até a janela. A noite alcançava sua hora mais bela, aquelas que os filmes de terror sempre anunciam a chegada dos fantasmas. O breu lá fora silenciava tudo que acabara de acontecer naquele quarto. E quando me virei... você não vai acreditar.
Ele me pediu uma carona.
Carona para ir embora, porque estava muito arrependido do que tinha feito. Mas mesmo assim, ele não poderia ir sozinho. Me pego pensando até hoje ser era porque ele estava tão aturdido com tudo e não conseguia pensar que existiam carros de aplicativo, ou se era mais uma forma de me humilhar, ou de ter um momento a mais para continuar chorando nos meus ouvidos.
Eu sorri. Não gargalhei, mas um leve levantar dos lábios mostrou um tímido sorriso em minha face. Peguei a chave do carro e acenei com a cabeça.
O trajeto foi silencioso. Nem o rádio eu liguei. Não precisava. Na minha humilde forma de dar o troco, acreditei que o silêncio seria a melhor forma.
Voltei para a casa e chorei a noite inteira. Chorei pela dor, pela saudade (por mais estapafúrdio que isso pareça), mas eu também chorei de alívio.
Me pergunto agora, caro leitor, se foi difícil para você ler até aqui. Uma cena, com muitos cortes, lida uma vez.
Agora quero te convidar a imaginar essa personagem revivendo essa mesma noite por quatro anos, quando deitava em seu quarto, apagava as luzes, mas a luz da lua refletia todas as marcas naquele guarda-roupa. Foram quatro anos olhando para ele. Quatro anos não conseguindo olhar para o espelho desse móvel desgraçado.
Então hoje eu acordei e decidi desmontar esse guarda-roupa. Meus planos sempre foram contratar um montador, marido de aluguel ou algo assim, mas hoje nada disso estava planejado, apenas peguei uma faca e comecei a desparafusá-lo. A cada agressão relembrada, o desmonte foi ficando mais agressivo.
Comecei a quebrar partes dele, mas não chorei. Desmontei tudo até o fim, não chorei, não tive crise de ansiedade com falta de ar. Poderia dizer que venci? Sim. Sinto-me vencedora, mas sinceramente, não quero ser chamada de guerreia.
Me desfiz deste móvel dando várias viagens descendo quatro andares de escada para levá-lo até onde ele pertencia: a lixeira. Meu corpo está cheio de dor, mas não se compara ao tanto de dor que senti naquele dia. Meu coração está mais aliviado, porém com emocional cansado, por isso que repeti tantas vezes aqui que: este dia foi difícil.
O guarda-roupas não me incomodava somente no exterior, pois dentro dele havia lembranças em forma de objetos de um relacionamento anterior. Não aquele, outro. Porque vivemos nos relacionando e a cada passagem, algo fica na gente, e outros tantos de nós se vão com os outros. No meu caso, o que ficou, eu deixei dentro daquele guarda-roupa.
Ela, aquela que não foi a responsável por quebrar o guarda-roupas, pois ela chegou depois. Vamos chamá-la de Diana.
Diana, ao ir embora, deixou presentes e bilhetes que me deu em vários momentos diversos. Quando ela decidiu não mais ficar, achou prudente deixar esses presentes dentro daquele maldito guarda-roupa. Ela poderia apenas ter jogado no lixo se não quisesse, mas acho que ela queria me torturar um pouco mais, talvez como vingança por não tê-la amado como ela achava que merecia.
Então, meus caros, desfazer-me desse guarda-roupas foi remexer em várias memórias, boas (poucas) e ruins, muito ruins. Esse desmonte me fez lembrar de muito. Uma mistura de sentimentos compilados em um cansaço ao final de tudo. Cansaço físico e emocional.
E no fim, ao dar a última viagem com as madeiras nos quatro lances de escada eu me peguei em um questionamento sem fim: COMO SER FELIZ?
É possível ser feliz? Preciso me esforçar mais para ser feliz?
Porque a única resposta que eu tive foi de fracasso. Fracassei em dois relacionamentos. Sim, você vai se contestar depois de ler tudo isso e dizer aquelas palavras de autoajuda: "Não fala assim, você venceu, saiu viva, passou por tudo isso... agora vai dar certo. Cure seu interior e coisa e tal". E eu me pergunto se você acredita nisso mesmo.
Em um mundo que me pressiona a tomar medidas imediatistas o dia inteiro, por qual motivo não posso questionar e pedir um resultado imediato para esses sentimentos ruins?
Sim, eu sei que foi eu quem os classificou como ruins, mas eu quero arrancá-los daqui.
A cada dor muscular que sinto no meu corpo hoje, ainda me vem algumas destas lembranças à mente. Espero que a medida que essa dor se cure, minhas lembranças também sigam o seu curso com qualquer vento ou brisa que o direcione para longe de mim.
Abri esse caderno hoje para dizer que hoje foi um dia ruim e que eu queria ser feliz... e já se foram mais de novecentas palavras, sejam elas conquistas ou feridas.
Então, caro leitor, até o próximo dia!
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Por: Rafaela Camargo em 05, jul, 2026.

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