Meu coração sempre se alegrava quando ia encontrá-la.
Se tem uma coisa que ela consegue fazer bem, é uma festa. Não uma festa daquelas extravagantes que parecem que são para recepcionar presidentes e parlamentares. Falo daquela festa que vai receber um amigo cheio de aconchego, com comida boa. Música que todo mundo gosta de ouvir, cantar juntos. Uma mesa redonda no centro, pra todo mundo poder conversar olhando no rosto um do outro.
Circularidade. Amizade. E sorrisos contagiantes.
Sorrisos que duravam horas, horas intermináveis, que mesmo na hora de ir embora, a gente nunca queria.
Às vezes, até depois de ir embora, a gente continuava rindo pelas mensagens do celular, ou até mesmo das lembranças que posteriormente se tornaram lembranças afetivas.
Quando não eram momentos assim com todos, era somente momentos só nossos em: cafeterias, chamadas de vídeos. Falando sobre tudo e sobre nada. Sobre querer fazer tudo e ao mesmo tempo ter um momento separado para o nada, para existir, para apreciar.
Porque a gente sabia que se apenas trabalhássemos, não teríamos tempo de apreciar a beleza que fomos capazes de criar. E quando as avenidas que se alongavam em quilômetros não nos deixavam estar tão perto uma da outra, havia celulares. Santa tecnologia!
Foram chamadas de vídeos, áudios e mensagens. Fofocas daquelas que não tinha nem como fazer um grupo de 3 amigas faladeiras, porque tudo era tão íntimo e ínfimo, que eram coisas apenas para duas pessoas, que éramos nós.
Acho que posso parafrasear aquela música “quem sabe isso tudo não quer dizer amor…” porque é amor sim.
Até ela ser uma grande sacana!
Ou talvez eu quem tenha sido.
Bethânia ao ler tudo isso, talvez cantaria: “fomos felizes, e felizes fomos”, porém com a voz da Gal ao fundo, melodiosa…
Você sabe qual foi o momento que decidiu que eu não seria mais suficiente para ocupar esse cargo de amiga?
Eu defino como cargo, porque se é um lugar que você troca com tanta facilidade, talvez seu processo seletivo tenha critérios aos quais eu não consigo preencher.
Na verdade, houve um tempo que preenchi. Tempos felizes, estes, não?
Mas talvez, só talvez, sua ficha de inscrição de seleção, poderia ser ajustável, já que somos
metamorfoses ambulantes. Todo mundo muda. E é claro, que nem sempre vamos conseguir ficar em um espaço pré-estabelecido por muito tempo.
Nosso amor era tão lindo!
Não sei se estamos no clima de dizer o “Ainda é”.
Acredito que fui curiosa demais ao olhar a janela que tinha ali do lado do seu escritório, onde passávamos a maior parte da vida juntas.
Aquele morro com um caminho, parte tortuoso e parte convidativo, porque na verdade a gente está cagando pro caminho, pois toda vez que olhávamos pela janela era o final da estrada que nos encantava.
Tinha borboletas reluzentes lá.
Tinha algumas luzes com contornos fluorescentes que sempre me deixavam curiosa.
“E se”, eu pensava. E se eu for lá?
Talvez eu possa sair daqui desse aquário, que é o meu lugar de amiga aprovada no processo seletivo, e ir até lá. Eu via que ela fica namorando essa vista da janela, mas ela nunca teve coragem de ir.
Eu vou! Tomei coragem!
Vou lá passar por esse caminho, talvez machucar um pouco meus pés com essas pedras e cascalhos que tem nele, mas meu foco são as borboletas brilhantes que tem ao final. Deve ser lindo!
Levantei-me do posto e fui. Mas como boa amiga eu avisei, e disse: “vou ali, mas já volto pra te chamar se for seguro.”
E eu fui, pulei a janela, porque as portas não me cabem com tanta facilidade e sempre me geram traumas. A janela era a melhor opção. E ela concordou que eu fosse pela janela.
Fui, passei o caminho, taciturna. Machuquei meus pés algumas vezes, e cheguei nas borboletas.
Porém, ali, em meio aquelas asas brilhantes, percebi que era apenas ⅓ do caminho.
Tem muito mais caminho pra frente dali, que lá da janela dela, não dava pra ver.
Quando a gente ficava lá, achava que as borboletas eram o fim. Mas elas apenas indicavam
que tinha mais caminho a seguir pra frente.
Eu acenei, levantei a bandeira, gritei, mostrei quais lugares ela poderia passar sem machucar os pés, porque eu já tinha ido e testado o caminho. Dava para ela vir.
Mas ela não quis e fechou a janela.
E agora?
Agora eu volto?
Tento voltar lá para o prédio, com banquetas, encontros, festejos e sorrisos?
Ou eu continuo pelo caminho até encontrar o que as borboletas poderiam me mostrar?
Minha consciência, que não me deixa em paz, achou por bem me fazer voltar.
Cheguei até aquela janela novamente, porém ela estava fechada. Estranho! Ela nunca ficava fechada.
Do lado de fora eu bati. Chamei. Implorei.
“Estou de volta!” “Vou ficar aqui com você!”
E nada. A janela estava trancada.
Mas a fresta na madeira me fez ver que a mesa estava ocupada com muitas outras pessoas.
E aí eu entendi tudo. A janela aberta para a linha do horizonte das borboletas era apenas uma
paisagem e não uma meta a seguir.
Mas agora… acho que não me cabe mais voltar para a sala das janelas.
Porque agora eu já vi as borboletas de perto.
Não vi o final, é verdade. E ele até pode ser assustador. Mas vou seguir o caminho.
Vez ou outra encontro pessoas que também decidiram desbravar esse caminho, afinal tem
borboletas para todos.
Não que eu vá fazer amizades sinceras com todos.
É um pouco complicado confiar agora.
Mas consigo confiar em meus pés. Eles me levarão onde preciso pisar com firmeza. E em meus
olhos, que me ajudarão a enxergar as entrelinhas.
Ficar sem aquela amiga foi o preço que paguei pela minha audaciosidade.
Perdi aquela companhia que preferiu ficar na janela. E eu? Ah, eu tenho tanto a descobrir…
A saudade dessa amizade vai ficar aqui, mas há tantos outros espaços a serem preenchidos por experiências novas, que o vazio será apenas um nome conhecido que me trará lembranças.
Mas o tanto de memórias que construirei daqui pra frente… essas não posso negar a conquista.
Adeus amiga, ou agora colega? Não me atento às nomenclaturas. Acho melhor te chamar de pessoa especial.
Espero que um dia você tenha coragem de ver as belezas que as borboletas azuis apontam para além da sua janela. Eu já começo a ver, mas ainda tenho muito caminho a percorrer.
E quando você decidir sair, caso queira, porque não é uma regra. Talvez você pegue bifurcações diferentes das minhas.
E talvez o destino final nem seja o mesmo que o meu. Mas eu desejo com todo amor do mundo, que as borboletas que você encontrará no seu caminho, que elas possam brilhar ainda mais forte.
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Por: Rafaela Camargo
@afroencantar

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